21/10/2011 09:09

A Escola de Teatro do Grupo Neelic oferece curso gratuito para formação de atores

    
    Será oferecida em Porto Alegre a primeira turma gratuita de formação de atrizes e atores resultante de uma parceria entre a Escola de Teatro do Grupo Neelic e o CEP Rua. A proposta das entidades parceiras é promover a integração social e oferecer uma oportunidade de iniciação profissional a jovens e adolescentes em situação de risco social, que tenham interesse por artes cênicas.
     
    O curso oferecido, denominado “No Caminho da Liberdade”, terá a duração de seis meses, e a inscrição, as aulas e material teórico distribuído serão totalmente gratuitos. A seleção dos inscritos ocorrerá de 03 a 12 de novembro de 2011, através de entrevistas agendadas pelos contatos do Grupo Neelic. O desenvolvimento das aulas se dará no sentido da montagem de um espetáculo de conclusão, a partir do texto “Liberdade, Liberdade”, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. A peça estreou no Brasil em 1965, e constitui-se de um marco da história do teatro brasileiro, por ter sido o texto de maior sucesso do chamado teatro de protesto, conjunto de peças, na maior parte, musicais, que criticavam a repressão imposta pelo golpe militar de 1964.
       
    O Neelic (Núcleo de Estudos e Experimentação da Linguagem Cênica) é um grupo teatral fundado em 2003, na cidade de Porto Alegre, que desenvolve suas atividades de forma continuada. Sua atuação ocorre no âmbito da prática e da teoria. Sempre atento às questões éticas e sociais, o Núcleo desenvolve seu trabalho em espaços públicos outrora ociosos, como o Hospital Psiquiátrico São Pedro e a Usina do Gasômetro, através do projeto Usina das Artes. Desta forma, o grupo pode, enquanto aprofunda seu processo de desenvolvimento de linguagem, colaborar com a transformação de camadas sociais do contexto em que está inserido, através da promoção de diversos eventos culturais como cursos, espetáculos, saraus, leituras dramáticas, entre outros. O grupo Neelic, além da atuação profissional que vem desenvolvendo com espetáculos e pesquisas teatrais na capital gaúcha, mantém hoje uma das mais fortes escolas de teatro de Porto Alegre, composta por um quadro de professores com excelência em seu trabalho e um variado portifólio de cursos de teatro para todas as idades e níveis de aprendizagem.
       
    O Cep-Rua (Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua) é um coletivo que reúne psicólogos, estudantes de graduação, mestrado e doutorado em Psicologia e profissionais de áreas afins interessados em estudos sobre crianças, famílias e adolescentes em situação de risco social, com ênfase na promoção de saúde, resiliência e avaliação de redes de apoio social e afetivo. O Cep-Rua é composto de 88 profissionais que trabalham dentro do prédio do Instituto de Psicologia da UFRGS, no entanto, a maior parte do trabalho executado ocorre fora dos muros da universidade, em contato direto com a comunidade. A base teórica consiste na Abordagem Ecológica do Desenvolvimento Humano. O Cep-Rua foi criado em 1994, em resposta à inquietação de um grupo de professores, psicólogos e estudantes de graduação que identificaram a necessidade urgente de integrar os conhecimentos da Psicologia com a realidade de populações em situação de risco social. Desde então, o coletivo vem desenvolvendo, além do preparo técnico, teórico ou metodológico, novas alternativas para lidar com estas situações, novas aprendizagens e a promoção da qualidade de vida de crianças, adolescentes e famílias. As atividades do Cep-Rua visam a integrar a pesquisa e o ensino acadêmico com a prática comunitária, e como membro do Children´s Rights University Network, defender os Direitos das Crianças, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Convenção dos Direitos da Criança das Nações Unidas (UNCRC). Buscam ainda desenvolver pesquisas sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco social e pessoal, enfatizando aspectos psicológicos do desenvolvimento e a promoção de saúde; manter uma central de referências e informações atualizadas sobre estudos e projetos sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco, disponíveis a toda comunidade; oferecer consultoria e assessoria e subsidiar intervenções em projetos, programas e instituições que trabalham com a população alvo; capacitar estudantes e profissionais para atuação em Psicologia Comunitária; promover cursos de capacitação, extensão e especialização, seminários, palestras que integram os resultados das pesquisas com a prática.
        
    O encontro do Neelic com o Cep-Rua e o nascimento do projeto “No Caminho da Liberdade” foram promovidos pela ideia de Piotr Trzesniak, físico e professor universitário, de trazer à cena novamente a dramaturgia de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Buscando parcerias, Piotr percebeu como interessante a possibilidade de se integrar a um grupo teatral com vistas a semear a ideia do texto “Liberdade, Liberdade” em Porto Alegre e no Estado do RS. Piotr Trzesniak durante a infância e início da adolescência morou em Porto Alegre, até sua família mudar-se para São Paulo. Lá, doutorou-se em Física e iniciou uma carreira docente, chegando à posição de professor titular da Universidade Federal de Itajubá, em Minas Gerais. Retornou às raízes há alguns anos. Apaixonou-se muito cedo pela Liberdade, que vê como um ingrediente essencial para a felicidade e o bem estar. Concorda que "o preço da liberdade é a eterna vigilância", e visualiza, nos brilhantemente amalgamados recortes de Millôr Fernandes e Flávio Rangel em “Liberdade, Liberdade”, uma maneira de alertar as pessoas, especialmente os jovens, para que se mantenham permanentemente atentas. O curso agora oferecido à população é um presente de Piotr à cidade de Porto Alegre.
        
    O curso “No Caminho da Liberdade” ocorrerá nas dependências do Grupo Neelic, nas sedes utilizadas no Hospital Psiquiátrico São Pedro e na Usina do Gasômetro, e será ministrado por Bruno Fernandes e Suelen Gotardo, atores e oficineiros do Neelic, e coordenado por Desirée Pessoa, diretora do grupo, atualmente Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS.
    Após o desenvolvimento do curso, pretende-se que aconteçam diversas apresentações do espetáculo, para estudantes de nível médio e superior, tanto na capital como no interior do estado, de modo que o vínculo e o treinamento dos estudantes não se encerram ao final do curso.
    Inscrições e mais informações no site www.gruponeelic.com ou pelos telefones (51) 33915931,(51) 84174583 e (51) 92749933.
 
 
SERVIÇO
O que: Curso “No Caminho da Liberdade”
Quando: Inscrições de 03 a 12 de novembro
Onde: Escola de Teatro do Grupo Neelic (Núcleo de Estudos e Experimentação da Linguagem Cênica)
Quem: Cep-Rua e Grupo Neelic
Quanto: Gratuito
 
 
 
 
 
 
Quer conhecer a história completa do Cep-Rua? Leia abaixo...
 
 
Contando a história do CEP-RUA
 
Nosso objetivo, neste relato, é apresentar o Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos(as) de Rua (CEP-RUA), grupo acadêmico dedicado à pesquisa, à extensão e à formação de psicólogos, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nosso CEP-RUA é composto por professores universitários, pesquisadores, psicólogos, estudantes da pós-graduação e graduação em Psicologia, cuja principal atividade é trabalhar de forma responsável em prol da melhoria da qualidade de vida da comunidade. Embora vinculados a uma instituição universitária, nosso papel de “psicólogos de rua”, como nos denominamos, consiste em exercer nossas atividades não apenas como produtores de conhecimento científico, mas, principalmente, como educadores sociais e agentes de saúde. No decorrer deste texto, vamos demonstrar como vimos realizando nossas atividades, a fim de alcançar nossos objetivos.
 
O CEP-RUA foi criado em 1994, em resposta à inquietação de um grupo de professores, psicólogos e estudantes de graduação que identificaram a necessidade urgente de integrar os conhecimentos da Psicologia com a realidade de populações em situação de risco social e pessoal. Havia pouca produção na área sobre o tema e havia muita Psicologia que se apresentava como universal e não havia sido analisada em relação a esta população. Com a meta inicial de trabalhar com meninos e meninas em situação de rua e todas as variáveis que envolvem esta realidade, foi criado o CEP-RUA, para produzir conhecimentos e ser um espaço de interlocução com a comunidade que trabalhava com estas crianças e adolescentes. No entanto, muito rapidamente esta meta inicial foi ampliada. Os relatos freqüentes sobre os motivos para a saída para as ruas levaram-nos a percorrer o caminho de volta para as suas casas, despertaram nosso interesse por temáticas relacionadas à violência intrafamiliar e à capacidade de superação da adversidade (resiliência). Sua vivência cotidiana de violência urbana, oportunidades de abuso de substâncias psicoativas, ausência de condições adequadas de higiene, moradia e cuidados, baixa escolaridade e trabalho precoce chamavam a atenção de nosso grupo e estimularam a busca de parcerias para a realização de pesquisas e implementações de programas de intervenção. Queríamos entender melhor o viver na rua, fosse ele um espaço de exposição ao risco, a proteção contra uma história de abuso, ou como a expressão da saúde e da superação. Não estava clara se a escolha ou a contingência levava estes jovens a viver a rua. Imbricada à curiosidade científica havia preocupação ética com a vida destas crianças e adolescentes. Juntamos esforços com profissionais capacitados e experientes no trabalho na rua, para compreender e atuar nessa realidade, na qual a cidadania e o respeito à criança e ao adolescente como sujeitos de direitos são cotidianamente violados. Desenvolvemos uma capacitação de todos os integrantes do CEP-RUA para abordagem da população juvenil e a pesquisa no espaço da rua. O preparo para enfrentar situações diárias de abuso, violência e outros eventos no espaço da rua, foi também capacitando a equipe para a crítica, a denúncia e o manejo de situações inusitadas a cada dia. Nossa capacitação e atuação, no entanto, felizmente não nos fez perder a capacidade de nos surpreendermos com o que assistíamos ou ouvíamos ser relatado por estas crianças ou famílias.  E isto se mantêm até agora. Fomos desenvolvendo mais do que preparo técnico, teórico ou metodológico, buscamos novas alternativas para lidar com estas situações, novas aprendizagens e a promoção da qualidade de vida das crianças e a nossa própria, enquanto profissionais. A situação de rua tornou-se uma, entre várias outras situações de risco pesquisadas, que passaram a incluir crianças, adolescentes e famílias que, de uma maneira geral, encontram-se em situação de miséria, tanto econômica como afetiva.
 
A maior parte do trabalho que executamos ocorre fora dos muros da universidade, em contato direto com a comunidade, esteja esta, nas ruas, instituições, favelas, bairros pobres ou escolas públicas. A integração da Psicologia acadêmica, com base em estudos sobre o desenvolvimento humano, com a prática comunitária tem se revelado possível, há dez anos, pela constante troca estabelecida que favorece a nossa formação e daqueles que conosco interagem. Através da pesquisa integramos o teórico ao empírico com as comunidades com as quais trabalhamos. Entendemos que nesta relação estável e de reciprocidade, é possível construir conhecimento. Buscamos no conhecimento das populações e em suas demandas encontrar temas para nossas pesquisas, programas de extensão (intervenção social) e para subsidiar com mais apropriação o ensino de futuros psicólogos. Enquanto doutores e estudantes, temos acesso aos mais atualizados achados da ciência e temos a formação e as ferramentas necessárias para entendê-los e explorá-los. As populações que acessamos têm a vivência do cotidiano de risco, das estratégias de enfrentamento e de superação e, muitas vezes, acumulam centenas de casos e dados que precisam ser sistematizados, em busca de entendimento e estruturação de ações efetivas. A integração do “abstrato” aprendido nos livros, revistas científicas e na internet torna-se “concreto” na interlocução e na busca cooperativa de melhores condições de vida para todos nós. Consideramos que qualquer cientista está em situação de risco se não encontra relevância em seu trabalho. Nossos desejos e expectativas visam à relevância teórica e social, portanto garantir esta integração nos faz profissionais mais felizes e realizados.
 
A vida acadêmica exige produtividade e, portanto, para isto temos respondido com um número expressivo de publicações em livros e revistas científicas nacionais e internacionais, que mais uma vez se confirmam neste livro. Nosso trabalho baseia-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Abordagem Ecológica do Desenvolvimento Humano e da Psicologia Positiva, enfatizando os aspectos psicológicos sadios preservados no desenvolvimento de crianças, adolescentes e famílias que vivem em situações de risco social e pessoal (Bronfenbrenner, 1979/1996, 1995a, 1995b, 1999, 2004; Bronfenbrenner & Evans, 2000; Bronfenbrenner & Morris, 1998, 1999). Nossos principais estudos têm gerado um conjunto de conhecimentos sobre aspectos metodológicos, éticos, teóricos e práticos, que servem de referência no país. Vamos citar aqui apenas teses de doutorado e dissertações de mestrado, que deram origem aos textos apresentados nos vários capítulos deste livro. Os textos completos destas produções e vários outros estudos têm sido podem ser encontrados nas publicações originais e na nossa homepage
 
Algumas metodologias foram desenvolvidas para facilitar o nosso trabalho, criar ou transformar nosso instrumental em algo mais lúdico e atrativo para ser utilizado em espaços cuja diversidade e adversidade se faz presente constantemente. Alves (1998), por exemplo, construiu uma metodologia de observação de crianças no espaço da rua, para investigar as atividades cotidianas, propiciando com ela subsidiar, com rigor, a realização de novos estudos da equipe (ver também Cerqueira-Santos, 2004). Em 2002, Alves validou esta metodologia com a utilização de figuras que apresentavam as atividades mais freqüentes de seu estudo de 1998, para identificação pelas crianças. Além disto avaliou o conceito de infância dessas crianças e como utilizavam e entendiam a dimensão tempo, uma vez que seu desenvolvimento e suas formas de organização se diferenciam de outras crianças.
 
Outra contribuição metodológica foi a proposição do uso do jogo de sentenças incompletas, por Raffaelli e cols. (2001), que tem sido utilizado em inúmeras pesquisas (Alves, 2002; Cerqueira-Santos, 2004). A apresentação de sentenças curtas e incompletas que o participante deve finalizar com idéias que surjam imediatamente após a apresentação do estímulo, facilita a expressão de conteúdos na forma de uma atividade lúdica. É mais fácil para crianças e adolescentes no espaço da rua completarem as sentenças, como uma brincadeira do que precisarem estruturar uma resposta a uma questão fechada que lhes é apresentada.
 
Outros métodos foram utilizados com muito sucesso para avaliar expectativas de futuro e representação de si com jovens em situação de rua e ou de risco gerada por pobreza familiar. Neiva-Silva (2003) e Borowsky (2003) utilizaram o método autofotográfico, oferecendo em uma relação de confiança, na qual o vínculo foi fundamental, máquinas fotográficas aos jovens para que fotografassem a sua realidade cotidiana. Na construção do livro individual com imagens obtidas por eles, os pesquisadores em cada um dos estudos, puderam avaliar a importância de contextos como família, escola e instituição na vida destes jovens. Fatores de risco também foram apontados, como a presença da droga, da precariedade das relações e do desejo não atendido de superação das condições limitantes de desenvolvimento.
 
Hoppe (1998) estudou a visão das redes de apoio social e afetivo de crianças em situação de pobreza, transformando um instrumento de lápis e papel em uma atividade lúdica com quadro de feltro, bonequinhos de velcro coloridas que mapeavam a estrutura e o funcionamento destas redes (Samuelsson, Thernlund, & Ringström, 1996). Tal instrumento vem sendo sistematicamente utilizado em outros estudos (ver também Mayer, 2003; Poletto, 1999). A avaliação de redes, como um importante aspecto para a promoção de resiliência (Brito & Koller, 1999), foi ampliada por Poletto (1999), que contrapôs a visão de famílias e de suas crianças sobre os contextos de desenvolvimento, identificando fatores de risco e proteção. Tais fatores eram gerados pelas coerências, divergências e desconhecimento sobre a real importância e influência das redes no desenvolvimento. Poletto verificou, por exemplo, que as crianças valorizavam e contavam mais com o apoio social de suas escolas do que seus pais supunham. Este resultado serviu como subsídio para um programa de intervenção que visava a aproximar os pais da escola. Ainda, com relação à avaliação da rede de apoio social e afetivo, Brito (1997) adaptou um instrumento (Kahn & Antonucci, 1980) para utilização no espaço da rua com usuários de drogas. O Modelo de Escolta, como foi denominado, era menos complexo que o mapa utilizado por Hoppe e por Poletto, adaptando-se melhor ao espaço da rua. Os recursos e a qualidade das redes disponíveis, especialmente da parte das instituições de atendimento às crianças e adolescentes de rua evidenciou-se como fator de proteção para a busca de desintoxicação e aderência ao tratamento. A revelação ou confirmação do papel fundamental no desenvolvimento destes participantes, apresentada na etapa de devolução da pesquisa por Brito às instituições, foi primordial para melhoria da qualidade de vida dos meninos(as) e dos profissionais.
 
Marques (1998, atualmente Cecconello) avaliou a resiliência de crianças, residentes em um bairro pobre, pela relação entre competência social, empatia, representação mental da relação de apego e qualidade do relacionamento mães-filhos. A competência social nas dimensões confiança, auto-eficácia e iniciativa foi avaliada através do Teste das Histórias Incompletas (Mondell & Tyler, 1981), transformada pelo acréscimo de figuras que ilustravam os relatos, favorecendo o interesse da criança pelo instrumento. A Escala de Empatia (Bryant, 1982; adaptada para a utilização no Brasil com crianças de nível sócio-econômico baixo por Ribeiro, Koller, & Camino, 2001) foi também utilizada. As crianças tiveram, ainda, a chance de realizar desenhos de suas famílias, que foram avaliados segundo Fury, Carlson, e Sroufe (1997) para investigar a representação mental da relação de apego. Fatores de risco, de proteção e mediadores foram levantados em entrevistas com as mães e cuidadoras sobre o desenvolvimento das crianças em uma convivência de proximidade da equipe de pesquisa com os participantes. Além de criar um instrumental lúdico para a realização desta pesquisa, Cecconello (2003) propôs com a continuidade de sua pesquisa de 1998, a operacionalização do modelo teórico da abordagem ecológica do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 1979/1996). Esta nova metodologia, que denominou inserção ecológica (ver Cecconello & Koller, 2003), vem servindo de método principal de investigação para muitos estudos em andamento no CEP-RUA (Morais, 2004; Narvaz, 2004; Paludo, 2004).
 
Reflexões éticas têm sido um outro aspecto altamente valorizado no nosso trabalho. Alguns artigos foram desenvolvidos tentando dar conta dos dilemas dos pesquisadores, no debate entre o rigor metodológico e o risco mínimo ao qual os participantes estão expostos na vida de rua (Hutz & Koller, 1999) e à realidade da violência intrafamiliar (Lisboa & Koller, 2000, 2001). O impedimento de realizar alguns estudos não foi paralisante para nossa equipe, quando nos deparamos com a obrigatoriedade de ter o consentimento livre e esclarecido de pais ausentes de crianças que estavam na rua ou de pais perpetradores de violência aos quais, ao confirmar a situação de abuso, denunciaríamos aos órgãos competentes. A validade de um consentimento destes cuidadores era ainda agravada pelo fato de que muitos deles e de outros guardiões eram analfabetos e não tinham realmente conhecimento do que estavam assinando. A Resolução no. 016/2000 do Conselho Federal de Psicologia auxiliou a equipe na realização de suas pesquisas, mas ainda há aspectos éticos que precisam ser focalizados, quando se trata de coletar dados com pessoas que estão em situação de risco. Atualmente, realizamos um estudo com jovens brasileiros de nível sócio-econômico baixo, em Porto Alegre, Recife e São Paulo (Koller, Cerqueira-Santos, Morais, Ribeiro & Martiniano, 2004), pelo qual investigamos fatores de proteção (senso de auto-eficácia, de competência, humor, otimismo, esperança, bem-estar, religiosidade, coesão, equilíbrio de poder e reciprocidade nas relações e rede de apoio social e afetivo) e fatores de risco (condições de educação, trabalho e desemprego, sexualidade, uso de drogas, conflitos com a lei, violência, suicídio, entre outros). Neste estudo, apesar do consentimento firmado pelos participantes é bastante difícil obter a identificação dos mesmos, o que seria fundamental para a realização de follow up. Este é um dos bons exemplos de como as exigências éticas podem atravessar a ciência.
 
Do ponto de vista teórico, muitos avanços já foram oferecidos à ciência pelos estudos do CEP-RUA. A conceituação sobre crianças de rua e crianças na rua apresentada pela literatura foi desde o início um impasse nas pesquisas do CEP-RUA desde 1996. Baseados em parâmetros relacionados ao dormir da rua e às relações com a família (Aptekar, 1996), alguns autores propunham a existência de dois grupos distintos de jovens no espaço da rua. Nossa experiência de abordagem e acompanhamento, não nos autorizava a definir claramente quem eram os meninos(as) que se “encaixavam” em qualquer uma destas definições e que garantiriam o rigor metodológico em nossos procedimentos de amostragem. Em anos de trabalho na rua, com mais de mil jovens abordados, constatamos que muito poucos deles dormiam sempre na rua. Flutuavam de lugar em lugar, de abrigos para mocós, de casas de uns parentes a outros. As relações de família estavam presentes nas histórias de todos os que abordamos. Nunca encontramos um só que não tivesse uma referência familiar. Em geral informam que têm vários endereços, mas consistiam em relações instáveis e sem profundidade no campo afetivo. A discussão sobre as controvérsias da literatura sobre a definição e a caracterização da população de crianças e adolescentes em situação de rua para obtenção de dados metodologicamente comparáveis levou Hutz e Koller (1999) a sugerirem o uso da expressão “jovens em situação de rua”, tomando caso a caso para análise e garantindo uma clara descrição da amostra. Recentemente, foi proposta uma classificação a partir de cinco parâmetros, levando em conta a vinculação com a família; a atividade exercida; a aparência dos jovens; o local em que se eles encontram e a ausência de um adulto responsável junto a eles (Neiva-Silva & Koller, 2002). Paludo (2004) propõe que seja acrescentado a estes parâmetros, ainda, o fato de que alguns desses jovens podem ser encontrados em horários não esperados para uma pessoa de sua faixa de idade estar sozinha na rua.
 
Ser criança de rua pode ser um “status” desejado por alguns jovens. Este dado controverso apareceu no estudo de Santana (2003), no qual algumas crianças relataram que para ter acesso a algumas instituições de atendimento e seus serviços, precisavam “fazer de conta” que tinham esta identidade. Instituições que a princípio pretendem tirar crianças da rua e para elas destinam seus serviços, provocam este tipo de atitude em alguns excluídos do seu sistema. Este achado é surpreendente, pois ao invés de evitar a migração de crianças para a rua e os riscos decorrentes, as instituições sem conhecimento deste fato, têm papel importante na trajetória de vinculação institucional percorrida pelas crianças em direção à vida na rua. Com relação a tal migração, Carpena (1998) investigou os relatos de várias famílias sobre os motivos de saída de casa de seus filhos, suas atribuições de causalidade e expectativas com relação a eles. Seu estudo demonstrou que a maioria destas famílias tem expectativas mais favoráveis de sucesso destes filhos do que dos que ficaram em casa.
 
Aspectos saudáveis do desenvolvimento têm sido privilegiados nas pesquisas do CEP-RUA, mesmo na presença de risco. Cerqueira-Santos (2004) avaliou o brinquedo de crianças em situação de rua, suas relações de liderança e agrupamento, como aspectos de proteção para a sobrevivência e a segurança na rua. Paludo (2004) avaliou as emoções morais de crianças em situação de rua, demonstrando suas capacidades de expressar vergonha, culpa, tristeza e raiva, bem como alegria, prazer e satisfação pela vida, ou seja, emoções que estão presentes no desenvolvimento humano de crianças em geral. Morais (2004) visa a avaliar a visão de saúde e doença de meninos em situação de rua, com o propósito de subsidiar programas de intervenção e prevenção para esta população. Machado (2004) planeja avaliar a influência de um projeto de educação pelo esporte no desempenho escolar e na qualidade de vida de crianças de primeiro ano do Ensino Fundamental. Junta a seu estudo, a avaliação de uma intervenção que vem sendo acompanhada, como atividade de extensão do CEP-RUA.
 
A escola tem sido um contexto de desenvolvimento importante no nosso trabalho. Lisboa (2000) construiu um instrumento de avaliação da agressividade de crianças, a partir da visão de seus professores. Além disto, identificou estratégias de enfrentamento (coping) e padrões de comportamento agressivo em escolares, que apresentavam histórias de vitimização intrafamiliar. Atualmente, investiga relações de amizade e vitimização (bullying) em crianças escolares e suas repercussões no desenvolvimento. Todos estes aspectos têm tido importante significado nas relações atuais entre crianças e seus reflexos na violência urbana. Mayer (2004), também, dedicou seus estudos ao contexto escolar e avaliou a rede de apoio social e afetivo e a representação mental das relações de apego de meninas vítimas e não-vítimas de violência intrafamiliar. Em 1998, estudou desempenho acadêmico e a percepção de controle em crianças em uma escola de periferia.
 
Estudos com famílias que vivenciam violência doméstica vêm sendo uma das linhas de pesquisa cada vez mais fortalecida de nossa equipe. De Antoni (2000) investigou a visão de meninas institucionalizadas por vitimização sobre suas famílias de origem e suas expectativas para o futuro. Seus achados revelaram aspectos protetivos que estas meninas apresentavam, especialmente relacionados com a esperança de superação e com recursos de rede para a saúde. Além de trazer uma proposta metodológica estruturada para o uso de grupos focais em Psicologia. Atualmente, avalia coesão e hierarquia em famílias com história de abuso físico, em situações reais, idéias e de conflito (De Antoni, 2003). O estudo de Narvaz (2004) com mães de meninas vítimas de incesto propõe-se a abordar a história de abuso sofrido intergeracionalmente, à luz da abordagem ecológica e das teorias feministas. Narvaz e Koller (2004a, 2004b) discutem aspectos relacionados à violência de gênero e disciplinamento corporal, respectivamente, dialogando com o feminismo. Habigzang (2004) pretende abordar também a questão de desenvolvimento e saúde em meninas vítimas de abuso sexual ao serem submetidas a um programa de psicoterapia cognitivo-comportamental. Azen, Koller, Habigzang e Machado (2004) ao investigarem processos jurídicos de casos de vitimização por abuso sexual, identificaram a necessidade de estabelecer uma rede mais efetiva, em termos de estrutura e funcionamento, composta por profissionais capacitados para lidarem com a temática específica e que possa apresentar mais recursos e condições de atendimento.
 
A interlocução da abordagem ecológica do desenvolvimento humano com outras teorias e áreas do conhecimento também tem sido alvo de alguns interesses de pesquisa no CEP-RUA. Freire (2004) propõe um diálogo com a abordagem centrada na pessoa proposta por Rogers (1959, 1986), apontando para a positividade e a aceitação incondicional da saúde do ser humano, em ambas as teorias. Petersen (2004) enfatiza a superposição da psiconeuroimunologia com a abordagem ecológica, focalizando em um ser humano com seus sistemas psicofisiológicos pelos diferentes contextos do ambiente ecológico, e favorece a compreensão mais completa do desenvolvimento humano.
Contamos ainda com as equipes organizadas e coordenadas pela Profa. Débora Dell’Aglio, que é uma colega de nosso maior apreço e  que se dedica ao CEP-RUA com o maior carinho e dedicação (Lene, Aline, Juliana e bolsistas).
Estes estudos compõem um corpo de conhecimentos teóricos sobre o desenvolvimento humano nesta população que era, até então, inexistente na ciência da psicologia. A partir deles não é mais possível dizer que não há teoria feita por pesquisadores brasileiros. No entanto, cada um dos estudos só tem realmente efeito se realizado para a integração do tripé do trabalho acadêmico: pesquisa, extensão e ensino. Cada um dos autores anteriormente citados constitui, para a execução de seus estudos de pós-graduação, uma equipe de trabalho composta por estudantes de graduação e psicólogos formados que estão se preparando para a seleção do Mestrado ou Doutorado. Desta forma expõem todo o grupo à pesquisa e à intervenção (extensão) permanente junto aos participantes do estudo. Nitidamente estes estudantes apresentam um melhor nível de aprendizado e preparação para o mercado de trabalho, em especial em atividades junto a esta população. Estas equipes são submetidas, antes da realização da pesquisa propriamente dita, a uma capacitação teórica, metodológica, ética e aplicada sobre os temas de trabalho a ser desenvolvido (ver Paludo & Koller, neste livro). Além de co-autoria em artigos escritos pela equipe, são agentes de saúde e trabalham em todas as atividades às quais estão expostos os alunos de pós-graduação durante a realização do trabalho de campo. As equipes reúnem-se semanalmente para leitura e discussão de artigos científicos, para prática metodológica, experimentação e preparação de intervenções. Em alguns períodos, os trabalhos se intensificam para a realização de estudos piloto, coleta de dados e devolução dos achados aos participantes da pesquisa. Em geral, todos estão envolvidos na confecção de posters e apresentações de congressos, sempre em co-autoria. Cada um dos alunos de pós-graduação deve: constituir uma equipe de trabalho; fazer uma dissertação ou tese; co-orientar um projeto de pesquisa de alunos da graduação e sua execução; publicar um artigo ou capítulo de livro por ano de curso, no mínimo; planejar e executar um projeto de extensão pelo menos; estar disponível para assessorar ou ser consultado pela comunidade segundo demanda. Os alunos de graduação engajados no CEP-RUA devem estar envolvidos em todas as atividades do seu coordenador de equipe.
 
O CEP-RUA construiu um banco de dados e referências sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco, que está acessível a toda a comunidade. Os artigos podem ser encontrados em sua maioria na Biblioteca Virtual de Saúde-Psicologia (www.bvs-psi.org.br). Capítulos de livros e enciclopédias, dissertações e teses estão disponibilizados na homepage do CEP-RUA (www.psicologia.ufrgs.br/cep_rua) ou a pedido em sua sede.
 
A extensão tem sido uma atividade permanente do CEP-RUA. Todas as atividades de pesquisa envolvem intervenção, diretamente ligada ao tema de estudo da equipe que está em campo ou em resposta às demandas geradas nas comunidades. As pesquisas do CEP-RUA visam, desde a sua criação, a subsidiar intervenções nas instituições que trabalham com a população alvo e a nutrir políticas públicas. Já houve trabalho com secretarias e ministérios de diferentes vocações (saúde, educação, habitação, segurança, justiça, trabalho, bem-estar social).
 
É um lema de trabalho de nossas equipes garantir que os participantes de nossos estudos sintam-se melhor depois de terem trabalhado conosco. Ou seja, temos o firme propósito de não sermos mais um protagonista da história de abuso, risco, exploração e violência que nossos participantes já viveram. Consideramos que é melhor perdermos o dado do que agirmos contrariamente a este preceito. Muitas vezes, no meio de entrevistas, o trabalho de coleta é interrompido ou finalizado, para dar vazão à demanda que nos é trazida pelo participante. Tem sido fascinante vivenciar que algumas pequenas observações que fazemos ou conhecimentos que transmitimos provocam diferença na vida deles. Da mesma forma, aprendemos muito com eles e, certamente, nos tornamos profissionais e pessoas melhores.
 
Algumas vezes, a demanda que se apresenta à nossa equipe não pode ser atendida diretamente pelo grupo que está em campo. Por exemplo, em uma escola que pesquisávamos resiliência e os efeitos da pobreza em crianças e suas famílias, surgiu a demanda imediata de falarmos sobre sexualidade e limites na educação de filhos. Nesse caso, acionamos os demais membros do CEP-RUA e da comunidade científica ou profissional para atenderem à solicitação. Outras vezes, há uma inquietação dos participantes por um resultado imediato ou direto para o problema que estamos pesquisando. Para isto estabelecemos um contrato com os participantes para que fiquem bem claros os objetivos, o tempo e o que podem esperar da pesquisa. Enfatizamos ainda a importância de um trabalho colaborativo para os melhores resultados do estudo e suas possibilidades de subsídios. Nestes casos, os participantes passam a se sentir responsáveis e a valorizarem sua inclusão no estudo.
 
Temos realizado muitos trabalhos de consultoria e assessoria a escolas, comunidades e instituições de atendimento a crianças, adolescentes e famílias em situação de risco. Nossa meta é sempre trabalhar junto a estes grupos, para que se fortaleçam e possam encontrar seus próprios caminhos para a solução de problemas ou planejamento de ações. Não pretendemos ser gurus, mas “empoderar” os grupos para encontrarem soluções para seus problemas. Esta atividade envolve necessariamente a participação de todos os integrantes do contexto. Costumamos constatar  que a intervenção deve visar à coesão das ações e dos valores do grupo assessorado, pois em caso contrário, a destruição dos preceitos propostos pode ser inevitável. Por exemplo, uma cozinheira pode desfazer no refeitório o que o monitor conseguiu na sala de oficina, se não exigir a mesma disciplina de respeito entre os jovens. 
 
Uma experiência de muito sucesso do CEP-RUA na intervenção social tem sido a realização de programas de capacitação. Iniciamos em 1994, realizando seminários amplos, que integravam os resultados da nossa pesquisa com a prática da comunidade. Organizamos encontros teórico-práticos semanais durante vários semestres letivos. A estes encontros, que chamamos de seminário das quintas-feiras, compareciam profissionais, técnicos, líderes comunitários, professores, monitores, educadores de rua, policiais e pessoas da comunidade que tinham interesse nos temas propostos. A cada seminário era atraído um número maior de participantes e alguns deles viajavam por várias horas para estarem conosco. Observamos que havia uma imensa demanda por estas atividades e que a universidade precisava urgentemente prestar este serviço à comunidade. Assim, dentro das atividades do seminário eram discutidas temáticas ligadas à infância e à adolescência em situação de risco, abordando questões como violência doméstica, abuso de drogas, crianças em situação de rua e escola, sexualidade e AIDS, entre outros. Para ministrar palestras eram convidados especialistas, que apresentavam seus resultados recentes de pesquisa e os discutiam com a comunidade. Este espaço caracterizou-se como uma linha direta de ligação entre os pesquisadores e a comunidade, criando oportunidades fundamentais de diálogo, que ajudaram a direcionar ações mais integradas e eficazes de ambos os lados. O espaço do seminário transformou-se em um fórum de discussão de problemáticas amplas à organização de uma rede de apoio social entre as entidades e pessoas que dele participavam e os pesquisadores. Ficamos muito gratificados, ao observarmos que além da aprendizagem sobre as temáticas trazidas pelos palestrantes, os participantes do seminário podiam apresentar suas próprias experiências, revelar suas demandas mais emergentes e trocar conosco o seu conhecimento prático pelo teórico. Mais ainda podiam se reconhecer e trocar entre si a experiência de lidar com uma população tão especial. Profissionais que trabalhavam em instituições de atendimento a crianças em situação de rua, ao se encontrarem semanalmente traçavam o percurso de algumas crianças em sua rotina cotidiana. No caso de desaparecimento de algumas destas crianças, encontravam seus colegas de seminário e procuravam por informações, mandavam recados para que as crianças retornassem às instituições das quais estavam ausentes. Podiam traçar estratégias para resgatar algumas crianças que eram atendidas em turnos diferentes por vários deles, quando esta abandonava a escola, voltava a usar drogas, precisava se preparar para um projeto oficina-escola e assim por diante. Muitas vezes, nosso trabalho de pesquisa, também partiu de uma solicitação feita por participantes do seminário ou emergiu de discussões geradas no âmago do seminário.
Situações curiosas ocorreram no período de realização dos seminários. Algumas pessoas não alfabetizadas pediram para participar das atividades e mostravam muito orgulhosas e satisfeitas por poderem se sentar nos bancos da universidade. Um outro evento comum ocorria depois da identificação da ausência de recursos disponíveis na comunidade para o atendimento de algum tipo de demanda. Nestes casos, possíveis soluções eram localizadas e os responsáveis pelos serviços em potencial eram convidados a participar do seminário, tomarem conhecimento sobre a necessidade e disponibilizarem alguma solução. Tal seminário servia, portanto, de proteção para as populações de risco, embora inusitadamente não fosse este o seu objetivo primordial.
 
Ao final de cada seminário realizávamos uma avaliação dos trabalhos e de demandas para o próximo semestre. Observamos que, com o passar do tempo, os grupos que desejavam atender ao seminário tornaram-se cada vez maiores e mais especializados. A busca constante de novos conhecimentos e a necessidade de devolução dos dados de pesquisa para a aplicação na comunidade estimulou os psicólogos do CEP-RUA, que cursam a pós-graduação a organizarem núcleos de estudo e extensão. Os temas mais freqüentes na demanda eram relacionados ao desenvolvimento humano, sexualidade, agressividade, drogas, família e comunidade, projetos sociais, violência e outros fatores de risco ao desenvolvimento. Foram criados, então o Núcleo de Estudos e Capacitação em Desenvolvimento Humano (NECADEH); o Programa de Intervenção em Sexualidade, Agressividade, AIDS e Drogas (PISAD); e, o Núcleo de Estudos sobre Desenvolvimento Comunitário e Cidadania (NEDECC). As atividades propostas por estes núcleos visavam a capacitação e ao desenvolvimento do potencial saudável de pessoas que atuavam junto às populações em situação de risco. O objetivo era propiciar que o trabalho integrado, da prática com a teoria, pudesse melhorar o desempenho no trabalho e permitisse que cada integrante se sentisse melhor como pessoa e profissional. Em muitos casos, os trabalhos de capacitação foram extremamente bem avaliados e tiveram continuidade através de vários anos. Em encontros futuros com alguns participantes, obtivemos o retorno da relevância da capacitação no percurso profissional de alguns deles. Para uns, a capacitação do núcleo era um divisor de águas entre o profissional antes imaturo e despreparado e o novo que tinha ferramentas para a superação e que sabia quais caminhos tinha a seguir para seu um educador social e um agente de saúde. Casos interessantes também aconteceram, com profissionais que ao participarem de nossas atividades revelavam sua profunda insatisfação com seu trabalho e rompiam com aquela atividade, buscando outra mais prazeirosa e realizadora. Certamente, tanto em um caso como no outro, nosso objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas foi alcançado. Observamos, ainda, que a prática com a comunidade, além de preparar os alunos de pós-graduação integrantes dos núcleos, também como profissionais mais capacitados para o trabalho de extensão acadêmica, permitiam que exercessem com mais entusiasmo e competência as suas atividades de pesquisa e ensino junto às suas equipes.
 
A configuração dos núcleos foi se alterando com o passar dos anos, tanto com relação aos alunos que os integravam, quanto com relação           a demanda social apresentada. Percebemos que não havia mais a necessidade de organizarmos eventos dedicados exclusivamente às temáticas iniciais de cada um deles. Os núcleos não foram extintos, mas se tornaram mais flexíveis e permeáveis, fato que se evidencia pela organização de programas de intervenção e capacitação focalizados em demandas variadas, que compõem e recompõem os quadros docentes de cada um deles. Atualmente, voltamos, de uma certa forma, à configuração de seminário, através das jornadas de estudo do CEP-RUA, com a apresentação de nossas pesquisas para a comunidade. Temos, ainda, o objetivo de nos comunicarmos dentro do próprio grupo, pois somos quase uma centena de pessoas, trabalhando em várias equipes, com diversos integrantes, inclusive com membros de outras universidades.
 
Trabalhamos em péssimas condições de infraestrutura dentro do prédio do Instituto de Psiclogia. Somos 88 pessoas envolvidas no CEP-RUA que tem uma sala de trabalho com 9 m2 aproximadamente. Temos, na verdade, excelentes entradas de financiamento nacional e internacional para o nosso trabalho, mas não podemos sequer renovar nossos equipamentos, porque não há espaço para dispô-los ou armazená-los nesta nossa sala.
 
Felizmente, o CEP-RUA tem ramificações que se estendem pelo país. Há vários grupos acadêmicos organizados sob a inspiração do nosso trabalho, dos quais nos sentimos “padrinhos e madrinhas”. Há, ainda, a criação de filiais do CEP-RUA em universidades do interior do estado, sob a coordenação de colaboradores ou de ex-alunos de pós-graduação. São, no entanto, grupos independentes, que apesar de usarem a mesma denominação, têm autonomia e direção próprias para o planejamento, organização e execução de seus trabalhos.
 
Muito aconteceu desde o início dos trabalhos do CEP-RUA. Aprendemos, pesquisamos, criamos metodologias, propusemos novas formulações teóricas e preceitos éticos, intervimos, formamos psicólogos, capacitamos pessoas, divulgamos nossos estudos. O CEP-RUA cresceu, mudou, e é composto hoje por novos membros. Alguns já se foram, levando consigo a experiência obtida durante sua permanência no CEP-RUA e buscando multiplicar os conhecimentos obtidos durante sua permanência conosco. Outros saíram e voltaram com novas especializações. Outros se distanciaram fisicamente, mas mantêm consigo a identidade de “cepiano” que tanto nos orgulha e agrega. Mas a maioria se manteve trabalhando com afinco para o crescimento do CEP-RUA. Desde 1994, ano de nossa fundação, mantemos um constante diálogo teórico-metodológico com pesquisadores nacionais e internacionais da área da Psicologia e áreas afins. Recebemos vários professores visitantes e estabelecemos várias parcerias para trabalharmos juntos na consecução de nossos objetivos. Atualmente temos realizado intercâmbios de alunos de doutorado para estágios, co-autorias, pós-doutorados e projetos para financiamento internacional.
 
Temos muitos planos para o futuro, que se inscrevem nas conquistas alcançadas nestes dez aos de vida. Apesar de ocuparmos uma sala de aproximadamente doze metros quadrados, costumamos dizer que somos centímetros quadrados muito produtivos e responsáveis pelo que se propõe a fazer. Ser uma referência na área de estudo sobre crianças, adolescentes e famílias em situação de risco social e pessoal não nos envaidece mais do que nos responsabiliza ao compromisso de nossa missão e expectativa que geramos. Na verdade somos um grupo de trabalho que aprendeu a fazer muitas trocas neste período. Trocamos conhecimento, inquietações, problemas, afetos e tudo o mais que um grupo de seres humanos pode compartilhar. Adoramos uma festa, cantamos juntos, acolhemos os que chegam e sentimos falta da presença física daqueles que se vão. Agradecemos a cada um daqueles que nos tem prestigiado com seu reconhecimento e que tem nos auxiliado a fazer um mundo melhor.
 
 
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